Violência Urbana

A falência urbana

Enchentes e deslizamentos

  O Homo sapiens sapiens existe na Terra há 195 mil anos. Até mais ou menos 10 mil anos atrás vivia da caça e da coleta. Agora inicia-se a revolução agrícola que promove a agricultura e a domesticação de animais, para seu sustento.

O excedente de alimento provoca a sedentarização, e com o tempo facilita um aumento crescente dos indivíduos da espécie. Tem início a aglomeração em forma de vilas e aldeias. Destas passa-se a formação das cidades e a conseqüente vida urbana.

Inicia-se a degradação da vida em conseqüência da estratificação social, caracterizada por uma reduzida elite dominante e exploradora e um contingente sem fim de dependentes da mesma, inclusive chegando em muitos casos a nível de escravização. É o chamado processo civilizatório. Os territórios das grandes cidades passam também a apresentar a estratificação imobiliária. A elite nos locais geográficos mais seguros e com construções à base de avançada tecnologia científica e a periferia nas várzeas dos rios e nas deslizantes encostas de montanhas dando origem em grande parte á favelização.

A má distribuição de renda gera a miséria e exclusão da cidadania com uma grande legião de miseráveis.

A desumana condição de vida dos excluídos e a ganância insaciável dos beneficiados geram as inimagináveis formas de violência.



Depois de séculos, vejamos hoje as conseqüências de alguns aspectos, entre outros. Os desalojados da cidadania sofrendo as conseqüências da falta de moradia, alimentação, saúde, trabalho e segurança.

É importante salientar aqui que todo animal necessita de um espaço físico individual para exercer seu comportamento corpóreo, inclusive de defesa, bem como uma função social, já que todo animal também vem munido geneticamente com uma disposição natural de cooperar com o próximo. A privação dessas necessidades básicas, entre outras também básicas e naturais gera indiscutivelmente distorções patológicas.

Vejamos a seqüência histórica da Evolução Urbana

Escavação em Israel mostra uso moderno do espaço de moradia

Por John Noble Wilford

“Recentes escavações em Israel parecem mostrar que nossos ancestrais da Idade da Pedra começaram surpreendentemente cedo a organizar os espaços habitacionais ao ar livre em núcleos separados para atividades diferentes. Uma área era primariamente usada para o preparo e consumo de alimentos, e outra, a mais de oito metros de distância, para a produção de ferramentas de pedra.

Os arqueólogos que divulgaram a descoberta na revista “Science” disseram que a existência de áreas distintas para atividades diferentes indica “uma conceitualização formalizada de um espaço para viver, o que muitas vezes se considera que reflete uma cognição sofisticada”.

E foi surpreendente, segundo eles, descobrir sinais disso em um acampamento ocupado já há 790 mil anos. Até agora, tais padrões de habitação e trabalho eram associados apenas com o Homo sapiens moderno, e como tal seria um comportamento surgido nos últimos 200 mil anos.”

(Folha de São Paulo – 4 de Janeiro de 2010 – Ciência e Tecnologia.)

Vemos que inicialmente nossos ancestrais organizavam seus núcleos habitacionais obedecendo as condições de sua natureza, ou seja, um espaço natural para viver. Esse núcleo habitacional já selecionava espaços para diferentes atividades. Descobertas recentes na Jordânia, em Dhra, ao lado do mar morto, mostram estruturas para depósitos de alimentos, há mais ou menos 11 mil anos atrás. Esses silos pré-históricos foram essenciais para o homem e substituindo a vida nômade de caçador-coletor para adcultura agrícola. Essas descobertas ocorreram segundo trabalho dos pesquisadores Ian Kuijt, da Universidade de Notre Dame, Indiana (EUA), e Bill Finlayson, do conselho para Pesquisa Britânica no Levante, de Amã, Jordânia.

Com a revolução agrícola, há mais ou menos 8 mil anos a.C. ocorre uma mudança radical na vida dos homens nessa fase. As povoações instalam-se ao redor dos campos de cultivo e de currais de criação de animais, Surgem as primeiras vilas e aldeias, das quais distinguem-se Catal Huyuk e Hacilar. Não há provas de chefia nessa aldeia. Nelas segundo James Mellaart são mantidas as características da natureza humana nessas formas habitacionais. Em seguida, ocorre a chamada revolução urbana com as conseqüentes formações de cidades. As primeiras ocorrem na Mesopotânia e são elas Uruk e Eridur, disputando a primeira a ser fundada. Temos também Nipour, Ur e Lagash. Entre elas já uma exploração dos camponeses pela aristocracia.

Lewis Mumford, citado por Fromm refere-se à questão do poder exercido sobre a civilização, afirmando que:

“Exercer o poder, sob todas as suas formas, era a essência da civilização; a cidade achou mil e uma formas de expressar a luta, a agressão, o domínio, a conquista – e a servidão.” Mostra ele que os novos modos de vida das cidades, eram “Rigorosos, eficientes, frequentemente cruéis, até mesmo sádicos”, e que os monarcas egípcios e os seus similares da Mesopotâmia vangloriavam-se, nos seus monumentos e nas suas tabuletas, de seus feitos pessoais, mutilando, torturando e matando, com suas próprias mãos, os seus principais prisioneiros”.

(Fromm, Erik. Anatomia da destrutividade humana, p.227- Rio de Janeiro: Zahar, 1975.)

O tempo se passou e vejamos agora um aspecto de como o fenômeno urbano evoluiu:

“A geografia física, as vantagens e desvantagens naturais, inclusive meios de transporte, determinam com antecedência o esboço geral da planta urbana. Crescendo a cidade em população, as influências de simpatia, rivalidade e necessidade econômica mais sutil tendem a controlar a distribuição de população. Comércio e indústria buscam localizações vantajosas circulando-se de certas partes da população. Surgem quarteirões de residências elegantes, dos quais são excluídas as classes mais pobres em virtude do acrescido valor da terra. Crescem então cortiços que são habitados por grandes números das classes pobres incapazes de se defenderem da associação com marginais e viciados.”

(O Fenômeno Urbano – Textos básicos de Ciências Sociais, 1967 – Zahar Editores - Investigação do comportamento humano - autor Robert Ezra Park)

O medo como pão de cada dia.

“Em nenhum outro lugar a vida está sendo um jogo tão perigoso como nas grandes cidades. Eis uma afirmação óbvia com a qual precisamos iniciar este escrito. E “jogo” é bem a expressão, pois que o elemento de “azar” está muito presente nas angústias do cidadão. Quando pais estão preocupados com uma demora inesperada de algum filho na rua, costumam dizer: “é um problema, na cidade grande tudo é possível!”. Pois bem, quando tudo é possível está instalado o absurdo. Com este, o seu filho mais direto: o medo.

Ao caminharmos por ruas ou avenidas de amplos centros urbanos, temos impressão de que nos deparamos com milhares de rostos que apresentam formidável variedade de expressões. Esta impressão tem seu tanto de verdade e seu outro tanto de falsidade, pois, se observamos com maior profundidade, reduzimos as expressões fisionômicas a dois grandes grupos: os que têm medo e o demonstram, como que se mantendo numa constante atitude defensiva, e os que têm medo e o ocultam sob um estardalhaço de agressividade, posicionando-se na ofensiva. Ao que parece, isto é o que há de básico para as fisionomias humanas, na grande cidade.

Assim, fica claro que o medo é o pão cotidiano dos cidadãos. As casas não mais expõem suas fachadas românticas, pois cercam-nas muros muito altos para dentro dos quais ainda triangulam cães de guarda. As pessoas trafegam em seus automóveis com os vidros bem fechados para evitar abordagens perigosas em cruzamentos e semáforos e, dependendo de por onde andem a pé, sentem-se como se estivessem em plena prática da “roleta russa”. O espaço amigo sonhado por Péricles na Grécia Antiga para as suas cidades foi subvertido por uma urbanização ferozmente capitalista que vem excedendo o que o homem pode suportar.”

(O que é Violência Urbana – Regis de Morais – 3ªedição, 1981. Págs. 11 e 12 – Editora Brasiliense.)

Civilização do risco

“Ao ver as imagens recentes de encostas desabando, pontes caindo e águas invadindo o interior de tantas casas e vidas, não pude deixar de pensar, até por ranço de historiador, que cenas semelhantes vêm se repetindo desde os primórdios do longo e difícil processo de construção do que hoje chamamos de território brasileiro.”...

...“Em certos aspectos, o mundo urbano-industrial fornece mais segurança do que no passado. Em outros, ele é incomparavelmente mais arriscado.”...

...Em cada região existem realidades específicas com as quais interagir. Daí o tema fundamental da “localização” (que ganha mais importância no mundo da “globalização”)

“É preciso superar a tradição arrogante de construir espaços sociais sem atenção à realidade natural através da qual existimos. A sustentabilidade consciente requer que as sociedades se territorializem de maneira ecologicamente inteligente.

Algo que, por certo, não é nada fácil, ainda mais no contexto de sociedades abertas e dinâmicas, que conseguem burlar cotidianamente as leis estabelecidas para ordenar o uso dos solos.”

“A desocupação das áreas de risco, porém, não pode mais ser adiada...

... As intervenções de engenharia geotécnica, por outro lado, precisam ser democráticas, suplantando a prática elitista de concentrá-la nas áreas habitadas pelos mais ricos.

A existência de “zonas de sacrifício”, onde se considere normal que populações pobres convivam com espaços degradados e de grande risco, dotados de baixíssimo investimento público, constitui uma injustiça ambiental inaceitável no contexto de uma ordem verdadeiramente republicana.”...

(José Augusto Pádua - Folha de São Paulo – 10/01/2010 – Mais!, pág.3)

Um ato inovador

A Falta de interdição nas cidades favelizadas resultou em uma espécie de urbanismo criminoso

... A falta de tal interdição nas cidades favelizadas, proveniente apenas da conveniência eleitoreira, resultou em uma espécie de urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também na natureza).

Se não era possível conter a debandada rural para cidades grandes, sob auspícios das problemáticas oportunidades de ascensão econômica, um mínimo de orientação e racionalidade de todos os administradores públicos de tais cidades e Estados deviam estabelecer, até por obrigação preliminar. Mas os novos conglomerados não foram vistos como acréscimos de gente, de pobreza e da necessidade de ação: aos olhos dos políticos, o que chegava e se instalava eram votos disponíveis...

(Janio de Freitas – Folha de São Paulo, 5 de janeiro de 2010 - Brasil A7)

...Moradores da várzea do Tietê, área conhecida como Jardim Pantanal, foram ontem, à sede da prefeitura, para protestar contra o que consideram “Descaso do Poder público com o sofrimento, a humilhação, a doença, e a desesperança que atinge o povo alagado” (Segundo panfleto distribuído no ato). Ontem completaram-se dois meses desde que o rio inundou a várzea ocupada por centenas de casas pobres que ainda estão sob as águas...

...Vários portavam garrafas cheias de água imunda, lodo e fezes, que diziam ter colhido no quintal de suas casas...

(Laura Capriglione – Folha de São Paulo, 9 de fevereiro de 2010 – Cotidiano C3)

Para concluir, é importante frisar que estes fatos aqui referidos são mínimos aspectos de uma problemática mais abrangente. Vivemos em uma sociedade desumanizada, onde os valores humanitários e espirituais foram expurgados. A evolução inegavelmente obedece a um fim. A seleção natural é apenas um dos instrumentos que para isso dispõem. É necessário liberar o ser humano dos grilhões do determinismo econômico que o pressiona à produção e ao consumo.

Os excluídos deste sistema não têm condição nem para produzir e muito menos para consumir o mínimo necessário à sua sobrevivência. A essa violência responde também com todas as formas inimagináveis de violência.

É indispensável, se ainda houver tempo, que se resgate o ser humano dessa condição e se conduza-o á sua condição natural de harmonia consigo mesmo, com o próximo e com a natureza.

Enfim, quanto à particularidade da nossa abordagem, é trágico vermos uma pessoa da varanda de sua cobertura folhear o jornal repleto de propagandas de moradias altamente sofisticadas, ler sobre o multiverso e ver exilados da cidadania medrando no solo úmido e fétido sobre os viadutos.


APEV - Associação pela Paz e Estudos da Violência
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