Uma abordagem evolutiva

Uma abordagem evolutiva

por José Carlos Zeppellini

Uma abordagem evolutiva

  Todo ser vivo, para se manter como tal, no tempo estipulado pela evolução para o individuo da sua espécie, e também, para a manutenção desta, precisa satisfazer necessidades básicas de auto-conservação e conservação da espécie. A agressividade é um recurso de que o animal vem provido, pela natureza, para apoio à satisfação das referidas necessidades.

Todo animal que antecede o humano, na escala zoológica, vem munido de um equipamento genético, indutor de estruturas nervosas, responsáveis por comportamentos adaptativos, a seu habitat, que apresenta constâncias temporárias em suas características ecológicas. Pela mutação e pela troca de genes, na interação sexual reprodutiva, não só ocorre uma especialização nos caracteres vigentes, bem como, são desenvolvidos outros, para a adaptação às novas características emergentes, em seu ambiente. Porém, como o habitat desse novo ser, ou seja, o Homem estende-se pela superfície do planeta, a multiplicidade de características da mesma, não possibilitou a existência, de uma também, multiplicidade de padrões de comportamentos adaptativos, perante a referida diversidade de situações ambientais.

Tal fato prejudicou nele o recurso das outras espécies, representado pela possibilidade de formação de novos caracteres adaptativos, pelo modelo clássico, mutação e reprodução sexuada, pois isso não ocorreria em tempo hábil.

Contudo, este mecanismo é preservado para a especialização dos caracteres mais genéricos em uso.

Para a solução do problema, o homem foi, então, dotado pela natureza, de um novo recurso com fim adaptativo, ou seja, a inteligência.

Tal instrumento o habilita de pronto, a elaborar uma forma de comportamento adaptável às mais variadas situações ambientais. Daí dizer-se que “a inteligência é uma forma de resolver problemas”. Contudo, ela varia de pessoa para pessoa. Isso mostra ser o líder natural do grupo, sempre o que tem mais condições para resolver problema rápido e adequadamente, sendo então, o mais inteligente.

Porém, tal habilidade tem seus limites. Sua elasticidade potencial é desenvolvida pela experiência, mas, repetindo, seus limites são determinados pelos genes. Há, como em outras características, a interação entre a expressão genética e os fatores ambientais.

Complementando esse novo caráter, e para dar condições ao seu exercício, a natureza liberou parcialmente os impulsos de auto-conservação e conservação da espécie, bem como a agressividade, do controle genético, que ocorre nos animais abaixo dele, na escala zoológica.

Sabemos que o controle genético da agressividade a faz, nas condições normais do habitat, expressar-se de forma construtiva, como prova o mundo animal anterior ao homem, a não ser em cativeiro. No ser humano, para contornar a nova situação, isto é, impedir que a agressividade extrapolasse seu fim construtivo, colocou a evolução, entre esses seres, um sentimento interpessoal, o amor. Este revela a importância que cada pessoa tem para a outra, bem como, para os grupos. Dele nasce a disposição para solidariedade e colaboração. É o corolário do amor. Este sentimento, então, faz com que a agressividade, seja contida, na expressão de seu aspecto destrutivo.

Essa sensibilidade faz cada um avaliar o sofrimento que poderá infligir ao outro.

Tal fato, então, inibe a ação agressiva destrutiva. Praticamente, não há violência.

O ser humano, ou seja, o sapiens sapiens, existe na Terra há mais ou menos 100.000 anos. Até 10.000 anos atrás, viveu da caça e da coleta. A sociedade era matriarcal. Relacionava-se tendo como base, como já foi dito o sentimento amoroso.

As mulheres dedicam-se a coleta de alimentos e participam da caça, atividade exercida pelo homem. Os homens viviam em harmonia com a natureza sem perturbar o meio ambiente, assim como os outros povos. O ideal dos povos caçadores é a estabilidade. Perfeitamente integrados no meio em que viviam, limitavam a caça às suas estritas necessidades. Por outro lado, esse modo de vida assim como sua alimentação quase que exclusivamente carnívora, impediam que se multiplicassem. Eram pouco numerosos. [1]

As relações humanas são caracterizadas pela ausência de guerra:

“Durante esse longo período, durante dezenas de milênios, os homens pré-históricos, caçadores, viveram armados e pacíficos. Encontra-se em seu habitat, nos restos das refeições e em seus artefatos inúmeras ossadas de animais mortos com suas armas eficazes e centenas, milhares dessas mesmas armas reunidas. Entretanto, os túmulos desses caçadores mão fornecem indício algum de guerra. Encontram-se ferimentos acidentais, como fraturas consolidadas, mas nunca ferimentos ocasionados por essas belas pontas de sílex.” [2]

Sem propriedade privada e acumulação, a divisão do trabalho não podia por si só fornecer uma base para exploração de um sexo pelo outro.

“Finalmente, nessa civilização matriarcal, não se dispõe de indício algum que permita concluir que havia uma atividade belicosa”. [3]

Assim, a divisão do trabalho entre os sexos do período paleolítico (o macho caçando a fêmea fazendo coleta e caçando episodicamente) baseia-se na cooperação:

“O lugar de residência é ambilocal e a descendência quase sempre bi linear”. [4]

Há mais ou menos 10.000 anos, o homem iniciou a atividade agrícola e a criação de animais, para o seu sustento, porém iniciando também o armazenamento exagerado e ambicioso do excedente. Referindo-se a sabedoria de Jesus quanto a este fato, Temos:

“Os pássaros não acumulam comida no celeiro, e Deus os alimenta”.

A possibilidade de atividade agrícola e criação de animais fizeram com que algumas pessoas passassem a explorar o trabalho do próximo para seu proveito, ou seja, acúmulo de “capital” e com isso poder sobre os demais.

Começa a ocorrer uma diversificação de trabalho, promovendo, com isto, ainda mais a exploração e escravização de uns pelos outros. O trabalho perde seu fim natural. Deixa de ser uma atividade básica de satisfação de “necessidades básicas” de ser humano, para atender a interesses particulares, ou seja, vantagens sobre os demais. De novo a sabedoria de Jesus:

“Considerai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham e não cozem. Digo-vos mais: n em Salomão, em todo esplendor de sua corte, vestiu-se como um destes”.

Com o tempo, a grande maioria das atividades não visava mais o bem do próximo, muito pelo contrario, iniciava-se ai, o que hoje assistimos com a morbidade lucrativa.

O excedente de alimentos fez com que o homem se sedentarizasse, formando as primeiras aldeias, vilas e posteriormente cidades.

A sociedade, em conseqüência das distorções acima citados, vai se tornando patriarcal, sem que o homem conseguisse suplantar a capacidade organizacional da mulher, que lhe é inata. O habitat natural vai se artificializando. Superpõe-se a ele o que se chama cultura.

O ser humano foi perdendo aquilo que é necessário a todo mamífero mais próximo dele. A satisfação adequada de suas necessidades básicas bem como, um espaço territorial individual e um lugar na hierarquia social, vão sendo cada vez mais restrito a um grupo social privilegiado. Este mundo criado pela cultura não lhe permite adaptação. Segundo Luiz Henrique Passador:

“Se o corpo, sendo fato biológico bruto, não é a fonte e nem o modelo para a criação da cultura, permanece a pergunta: Por que razão os homens abandonam o mundo sólido e pronto da natureza?”. [5]

Nietzsche sempre nos lembra:

“Que mais que natureza humana, somos natureza”.

A filosofia tradicional esforçou-se para demonstrar que o homem é um ser racional, mas a cultura mostrou que ele é um ser de desejo. Na realidade, o próprio espírito, na linguagem de Nietzsche, é uma conjunção de forças, por isso, pode ele tratar-se de uma “espiritualidade dos instintos”, que é o que chamamos de “razão”.

Nessa nova situação, a “de cativeiro” o homem tem sua dinâmica de vida alterada. O interesse substitui o amor nas relações interpessoais. A solidariedade e colaboração são substituídas pela competição. A retração do amor pelo próximo faz com que não haja sensibilidade em relação ao sofrimento do outro. Prevalece morbidamente o interesse individual.

Esta condição faz com que a violência coloque em risco a sobrevivência dos seres vivos no planeta.

Talvez isso se mostre como conseqüência de novas formas de vida assumida com a chamada civilização.

Talvez isto explique a violência humana. Cada vez mais, no entanto, o sistema vai alienando o ser humano, cada vez mais distorcendo sua natureza.

O que vemos é cada vez mais a ciência fornecer recursos para a tecnologia criar sofisticados artefatos de destruição em massa. Cada vez mais os interesses de grupos de poder torturam e matam sem consideração e piedade, encontrando prazer em tais ações. Cada vez mais destroem nações e devastam culturas. Haverá como “regredir” destas condições para a natural.

Talvez, uma “involução” do homem da chamada civilização para a “primitiva” condição natural devolva o homem a uma vida digna de sua natureza.

A Revolução Neolítica

Costuma-se designar de revolução, no caso do desenvolvimento humano, aquelas etapas do processo evolutivo em que houve mudanças significativas no seu modo de vida em relação à Natureza. Até dez mil anos atrás, viviam da caça e da coleta de alimentos. Eram nômades, “na sua maior parte provavelmente não era um ser brutal, destrutivo, cruel, e, consequentemente, não um protótipo do “homem, o assassino”, que encontramos nas fases mais desenvolvidas de sua evolução”. (Fromm, 1975, p. 210)

Deveria viver em harmonia consigo mesmo e com a natureza, já que uma condição depende da outra. Limitava-se a colher o que lhe era possível e caçar o que estava ao seu alcance, sem influenciá-la ou transformá-la.

Pelo fato da coleta e da caça irem se rarefazendo mais depressa pelo crescimento das tribos, nas áreas por onde passavam, a inteligência da mulher descobriu que se enterrasse a semente da planta, ela germinava, crescia, e gerava sementes. Estava inventada a agricultura, e ao mesmo tempo, começava a criação de animais. Esse tipo de atividade ( agricultura e criação de animais ) redunda numa quantidade maior do que a natureza lhe concede. Até certo ponto, independiza-se da natureza. Essa nova condição cria a possibilidade de alguns membros da horda dedicarem-se a outras atividades, ou seja, manufatura de utensílios, vestimentas, (fiação e tecelagem), bem como a transformação da argila em vasos de cerâmica, os quais eram usados para armazenamento do excedente dos alimentos.

Para Erik Fromm “Não seria exagero ver na descoberta da agricultura, a base de todo pensamento científico e do desenvolvimento tecnológico posterior”. (1975, p. 211)

A prática da agricultura e da pecuária promove uma mudança radical do modo de vida dos homens nessa fase.

De nômades, deixam de deslocarem-se de um lugar para o outro em busca de alimentos, e vão se tornando sedentários e com isso se estabelece uma nova organização social.

As povoações que se instalam em torno dos campos de cultivo e de currais para criação de animais dão origem as primeiras vilas e aldeias. Algumas delas eram formadas por choupanas circulares ou retangulares. Ao redor dessas habitações havia os estábulos para animais e os armazéns para os grãos de alimento.

Destas aldeias, podemos distinguir entre outros, Catal Huyuk e Hacilar.

Quanto à organização social, para Childe (1975), não há provas de chefia nas aldeias neolíticas.

James Mellaart, arqueólogo inglês, descobridor e estudioso das aldeias de Catal Huyuk não menciona prova de chefia na mesma. Tudo indica não ter havido ali uma organização sócio-política hierárquica. Uma característica básica da aldeia neolítica é o papel central da mãe em sua estrutura social bem como na sua religião.

A mãe enquanto deusa é identificada com a Mãe Terra e a posição central de deusa mãe mostra-se nas figuras, nas esculturas e nos relevos dos santuários. Erik Fromm (1975) referindo-se a quarenta e uma esculturas desenterradas refere que trinta e três delas eram de deusas.

A Deusa Mãe era representada só, ou na companhia de um homem, nunca subordinada a um senhor. Era também a senhora dos animais, das plantas e a padroeira da caça e da cultura. Falando sobre a característica da sociedade de estrutura matriarcal ser pacífica, temos o seguinte texto de J.J. Banhofem em “Das Mutterrecht” (O direito materno) citado por Erik Fromm (1975, p.220):

“A relação que há na origem de toda cultura, de toda virtude, de todo aspecto mais nobre da existência é a que existe entre a mãe e o filho; essa relação atua num mundo de violência como um princípio divino de amor, de união, de paz. Criando o seu filho, a mulher aprende, mais cedo que o homem, a ampliar seus cuidados amorosos para além dos limites do ego em direção a uma outra criatura e a dirigir qualquer dom de invenção que ela possuir a preservação e ao desenvolvimento da existência de outrem. A mulher, nessa fase, é o repositório de toda cultura, de toda benevolência, de toda devoção, de toda preocupação para os que vivem, e de todo pesar para os que estão mortos. Não obstante, o amor que surge da maternidade é, não apenas mais intenso como também mais universal... Enquanto o principio paterno é inerentemente restritivo, o principio materno é universal; o princípio paterno implica limitação a grupos definidos, mas o principio materno, como a vida na natureza, não conhece quaisquer barreiras. A idéia de maternidade produz o sentido da fraternidade universal entre os homens, que morre com o desenvolvimento da paternidade. A família baseada no direito do pai é um organismo individual fechado, enquanto que a família matriarcal carrega o caráter universal típico que emerge no começo de todos os progressos e faz distinguir a vida material da vida espiritual superior. Cada útero de mulher, imagem mortal da mãe-terra Deméter, dará irmãos e irmãs aos filhos de todas as outras mulheres; a pátria só conhecerá irmãos e irmãs, até o dia em que o desenvolvimento do sistema paterno dissolver a unidade indiferenciada da massa e introduzir o princípio da articulação.

As culturas matriarcais apresentam muitas expressões e mesmo muitas formulações jurídicas desse aspecto do principio maternal. É à base da liberdade universal e da igualdade, tão freqüentes nos povos matriarcais; de sua hospitalidade e de sua aversão à restrição, quaisquer que sejam suas formas... E nele é que está enraizado o admirável senso de parentesco e de sentimento de companheirismo, que não conhece limitações ou linhas divisórias e engloba todos os membros de uma nação, por igual. Os estados matriarcais foram particularmente famosos por sua carência de lutas e conflitos internos... Os povos matriarcais – e isto não é um dado menos característico – davam especial culpabilidade às lesões corporais feitas a um companheiro ou mesmo provocadas em animais... Um clima de terna humanidade, discernível até mesmo na expressão facial da estatuária egípcia, impregna a cultura do universo matriarcal”.

Finalmente, nessa civilização matriarcal não há indicio algum que permita concluir belicosidade. A relação entre as pessoas fundava-se no sentimento amoroso e como decorrência havia cooperação e solidariedade entre elas.

Para Fromm, no que diz respeito ao papel preponderante da agricultura no desenvolvimento das próximas etapas da civilização, não se torna exagero alegar que “A civilização moderna foi fundada pelas mulheres”. (p. 215)

A próxima etapa da evolução é a Revolução Urbana e a conseqüente formação das cidades e de diferentes formas de poder sobre as populações, as quais foram bem descritas por Lewis Mumford.

Lewis Mumford, citado por Fromm refere-se à questão do poder exercido sobre a civilização, afirmando que:

“Exercer o poder, sob todas as suas formas, era a essência da civilização; a cidade achou mil e uma formas de expressar a luta, a agressão, o domínio, a conquista – e a servidão.” Mostra ele que os novos modos de vida das cidades, eram “rigorosos, eficientes, frequentemente cruéis, até mesmo sádicos”, e que os monarcas egípcios e os seus similares da Mesopotâmia“ vangloriavam-se, nos seus monumentos e nas suas tabuletas, de seus feitos pessoais, mutilando, torturando e matando, com suas próprias mãos, os seus principais prisioneiros”. (1975,p.227)

Segundo a referencia de capa do livro “O feminismo: uma abordagem histórica”, de Andrée Michel (1982), temos:

“A história da condição da mulher é principalmente uma história de repressão e ocultação de repressão, iniciada há aproximadamente oito mil anos, quando no começo do período Neolítico médio, a agricultura de arado substituiu a agricultura da enxada, a caça e a coleta como modos principais de produção. Mas o processo repressivo continua até hoje nas práticas das sociedades contemporâneas, cujos fundamentos são os mesmos das sociedades de Neolítico médio: expansão obstinada, busca da acumulação infinita (de poder, de lucro, de prestígio etc.), graças a uma concorrência e uma competição encarniçada. Se a guerra econômica e a conquista de novos mercados pelas potências multinacionais e pelos Estados substituem hoje a expansão territorial, os valores dominantes e as práticas agressivas permanecem as mesmas em relação aos grandes vencidos daquele período pré-histórico, ou seja, as mulheres”.

É por isso que as mulheres ainda hoje estão mergulhadas num sistema patriarcal e sofrem conseqüências desastrosas.

Referências Bibliográficas:

Childe, Vere Gordon. A Evolução Cultural do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

Fromm, Erik. Anatomia da destrutividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

Michel, Andrée. O feminismo: uma abordagem histórica. Rio de janeiro: Zahar, 1982.

A revolução Urbana (e Idade dos Metais)

A formação das cidades

Por volta de 4.000 anos a.C. a faixa que se estende do Egito passando pela mesopotâmia e alcançando a Índia era povoada por uma multiplicidade de aldeias. Nos limites desta área havia outras tribos, distribuídas pelos desertos. Entre 6000 e 4000 A.C. o homem começou usar a força física do boi, do vento e das águas, inventou o arado, o carro de rodas, o barco a vela e o processo químico de fundição de metais. Destes, o cobre foi o primeiro a ser fundido. Posteriormente descobriu o bronze (liga de cobre e estanho), e por fim o ferro. Os menos resistentes eram usados na fabricação de objetos de adorno e de coração. Os mais resistentes, através da fundição eram moldados do modo a transformar-se em ferramentas, armas, armaduras e outros utensílios.

Acrescenta-se a isso a escrita e os métodos de mensuração.

Esses fatos abriram caminho ao desenvolvimento de aldeias para cidades.

Para tanto, foi indispensável um trabalho árduo e empreendimentos coletivos, para drenar pântanos, irrigar áreas semi-áridas e construir diques.

Inventou-se o tijolo e com isso o aperfeiçoamento das residências, o que abria caminho para a arquitetura.

Paralelamente as aldeias de agricultores fixos, havia também caçadores, pescadores e pastores vivendo de forma semi-nômades. Os aldeões agricultores produziam excedente de cereais, os quais podiam ser trocados com excedente de peixes, caça e outros produtos pastoris, com os referidos grupos semi-nômades. Nascia o comércio entre as cidades, ou seja, entre agricultores fixos e povos nômades.

As cidades, contudo, não possuíam toda matéria prima de que necessitavam, havendo então um comércio entre elas. Além desses bens de primeira necessidade, também comerciavam artigos ditos de luxo. Importavam pedras semi-preciosas da Suméia e do Egito. Sendo usadas como adorno, estes acrescentavam um valor novo às pessoas, criando-lhes uma magia pessoal. Começaram então, por extensão, atribuir as referidas pedras propriedades mágicas. Esses fatos dão origem ao chamado amuleto, ou seja, objetos que se traz e a que se atribui supersticiosamente qualquer virtude.

Tais pedras deixam de ser vistas apenas como ornamentos, mas também, como meio para alcançar riqueza e vida longa. Passam a crer que esses poderes mágicos aumentavam os resultados das atividades produtivas. Com isso, o trabalho ganha um reforço, e a Natureza passaria a ser manipulada no sentido de atender as exigências do homem sobre ela. Exemplo: A Mãe Terra será mais fértil.

Se essas pedras tivessem um formato determinado, ou um símbolo fosse nela impresso, esses fatos, como um mana, incorporavam-lhe um alimento mágico, isto é, sua virtude mágica seria aumentada. Ganhavam com isso a condição de Tabu. Quem lhe afrontasse o poder mágico sofreria uma contaminação mágica, e com isto, um castigo o infligiria. O Cauri, por exemplo, assemelhava –se a vulva, e seu uso garantia a fertilidade.

Muitas vezes os povos semi-nômades, quando por motivos vários, ficavam carentes de alimentos, migravam para cidades na tentativa de serem aceitos, dispondo-se inclusive a trabalhar como escravos. Outras vezes, partiam em invasões guerreiras, para o ataque às cidades. Iniciava – se assim a guerra.

Há uma alteração na organização social e na condição da mulher. O homem começa a substituir a mulher nas atividades agrícolas. Da enxada da mulher passa-se para o arado do homem.

Ocorre a acumulação de bens e a propriedade privada, o que permite o aparecimento de uma classe dos mais ricos, a serviço dos quais ficam os artesãos e os camponeses. Essa acumulação de bens origina a sociedade estamental, com formação de classes, bem como a escravidão e a degradação da condição da mulher.

Tem início o enclausuramento das mulheres, as quais são reduzidas à função de genitoras e servas reprodutoras da família.

No seguinte trecho, Andrée Michel ilustra bem esta última condição, acima expressa:

“Assim, o enclausuramento das mulheres nas cidades efetua-se em duas etapas. Durante a primeira etapa, os que detêm a propriedade privada da terra e os privilégios sociais apóiam-se nas castas dos sacerdotes e dos militares, os primeiros burocratas encarregados de defender pela lei ou pela força os privilégios de classe e de despojar as mulheres de suas antigas funções sacerdotais e políticas. Durante uma segunda etapa, em que o crescimento das cidades e do comércio dá margem ao nascimento de uma classe média, aparece o esnobismo dos comerciantes que pensam subir na hierarquia social retirando suas esposas da produção urbana ou artesanal e, em conseqüência, de toda rede de comunicação suscetível de atribuir-lhes um poder político na cidade.”

Quanto ao aspecto religioso, nas transformações ocorridas com a revolução urbana, há uma substituição das divindades femininas do Neolítico, fase em que predominavam as aldeias.

A domesticação dos animais revelou ao homem o papel do macho na procriação.

Se o homem participava, então, tanto quanto a mulher na procriação, ele se eleva em importância e começa a aparecer ao lado da Deusa – Mãe numa parceria divina. De filho, irmão passa a esposa e daí para o Céu – Pai.

Começam a aparecer as grandes religiões patriarcais para as quais as mulheres não poderiam exercer funções sacerdotais em razão de seu sexo.

A magia e a religião constituíram o andaime necessário para sustentar a crescente estrutura da organização social e da ciência. Infelizmente, o andaime dificultou, muitas vezes, a execução dos objetivos e o progresso da construção permanente. Serviu, mesmo, para apoiar uma fachada falsa, atrás da qual a estrutura fundamental ficou ameaçada. A revolução urbana, possibilitada pela ciência, foi explorada pela superstição. Os principais beneficiários das realizações dos agricultores e artesãos foram sacerdotes e reis. A magia, mais do que a ciência, foi assim entronizada e investida da autoridade do poder temporal. (Childe, 1975, p.227)

As primeiras Civilizações

Das aldeias auto - suficientes aparecem as cidades.

As primeiras civilizações foram conseqüências do processo que teve início com a passagem do nomadismo ao sedentarismo, com a formação das aldeias.

Esse processo envolveu mudanças principalmente econômicas que ocorreram no período neolítico, iniciando-se mais ou menos a 5.000 a.C no Egito e na Mesopotâmia e em 4.500 a.C na Europa.

Com o tempo, na medida em que aumentava a população, bem como a produção, várias cidades começavam a comercializar entre si e em alguns casos a se expandirem através de conquistas de outras. Durante essas atividades guerreiras, sobressaiam os mais fortes e sagazes, que por suas qualidades de líderes tornavam-se reis, e exerciam o poder sobre uma nova unidade política, representada pelo território que englobava as novas cidades conquistadas. Assim foram fundando-se os vários impérios na Mesopotâmia, no Egito, na Índia e na China.

Um novo modelo de organização sócio-econômica e política ia se instaurando. O novo modelo do ponto de vista político envolvia um rei que editava as leis e impunha obediência a elas, bem como tinha o exército a seu encargo. Do ponto de vista econômico havia os comerciantes, os funcionários, os camponeses, os artesãos, etc. Do ponto de vista social, a sociedade estruturava-se em termos de uma classe privilegiada formada pela família dos reis, os nobres, altos militares, proprietários de terras, comerciantes e os controladores do artesanato. A classe abaixo constituía - se pelos pequenos comerciantes artesãos e camponeses.

A Civilização Grega

A origem da Civilização Grega ou Helênica[6]

I – Período Pré - Homérico – Séculos XX a XII a.C

A área em que se desenvolveu a civilização Grega envolve a península Balcânica e as ilhas adjacentes, bem como a costa mediterrânea da Ásia menor. Grande parte dessa área era habitada pelo povo primitivo, os pelasgos (Pelágios).

Nas várias regiões dessa área, principalmente as costas do Mar Egeu e suas ilhas, havia entre 3.000 e 2.000 anos a.C, muitas comunidades Neolíticas baseadas na agricultura. Posteriormente se desenvolveram graças à metalurgia e ao comércio marítimo.

A história da Grécia deita suas raízes mais profundas, ou suas origens, na cultura cretense.

O povo cretense era governado por príncipes que fundaram um império marítimo. Minos foi um dos governantes de Creta². Construiu diversos palácios. Dada sua importância, a cultura cretense é também chamada de cultura minoica.

Em 2.000 a.C a cidade de Cnossos teve grande esplendor cultural graças a sua situação geográfica (entre o Egito e a Ásia menor) e ao comércio marítimo. No período Pré - Homérico chegaram a Pelínsula Balcânica, povos arianos (Indo - Europeus) Aqueus, Eólios, Jônios e Dórios, em ondas sucessivas.

Os Aqueus foram os primeiros a chegar, entre 2.000 e 1.200 a.C na região do Peloponezo. Logo assimilaram a cultura dos pelasgos, fundaram cidades como Tirinto e Micenas. Entraram em contato com os habitantes de Creta dando origem a civilização Creto-Micênica. Em 1700 a.C chegaram os Eólios e os Jônios. Com isso, aumentaram a população Micênica e iniciaram uma expansão marítima. Posteriormente entraram em choque com Creta provocando a destruição de Cnossos e prosseguiram até o mar Negro invadindo agora, a cidade de Tróia. Esta competia pelo comércio marítimo. Segundo a lenda, a guerra teve como motivo o rapto de Helena esposa de Menelau, rei de Esparta, por Paris, filho do rei Príamo de Tróia.

A essa altura ocorre a segunda invasão dos povos arianos, sendo agora, pelos Dórios que arrasaram Micenas e provocou a primeira dispersão do povo grego.

[1] Nome dado para os gregos ou helenos (de Hélade, primitivo nome da Grécia).

² Creta (em grego moderno, Κρήτη, transl. Kríti) é a maior ilha e uma das treze periferias da Grécia. Está no sul do mar Egeu e é a segunda maior ilha do mar Mediterrâneo oriental e a quinta maior de todo aquele mar. Segundo um mito, era naquela ilha que vivia o minotauro. A capital da ilha é a cidade de Iráclio

II - Período Homérico - Séculos XII a VIII a.C

Nos territórios que hoje denominamos de Grécia, a população passa a formar grupos de família ou genos que descendiam um ancestral comum. Na estrutura da família a autoridade máxima era Pater – famílias, ou seja, o patriarca, o Pai. Administrava todos os bens da família bem como tinha poder sobre a esposa, os filhos e os escravos, exercia funções judiciais no âmbito familiar. Só deixavam suas funções por morte ou perda da cidadania.

Com o tempo tem origem as Poleis, ou seja, cidades Estados governados pelo Rei. Dentre elas encontramos Esparta e Atenas. As Poleis queriam a supremacia sobre a Grécia³, sendo que a primeira cidade Hegemônica foi Atenas, seguida por Esparta e, por fim, Tebas.

III – Período Arcaico – Séculos VIII a VI a.C

Ocorre aqui a segunda dispersão grega. Entre suas causas estão à desintegração do sistema gentílico, o aumento da população e o progresso da navegação e a ocupação de regiões do mediterrâneo.

Como já vimos, as principais cidades Estados da época eram Esparta e Atenas.

Atenas

Situada na região chamada Ática eram descendentes dos Jônios e Eólios. Teve um grande desenvolvimento econômico. Por volta do ano 500 a.C ocorre a implantação da democracia em Atenas. Sua origem decorrem do direito dado a todo cidadão de se inscrever em uma unidade política, o Demo. Cada três Demos, constituía uma tribo tendo sido Atenas dividida em dez tribos. Essa possibilidade de exercer o poder político através dos Demos é que deu origem à forma de governo conhecida como democracia.

IV - Período Clássico – Séculos V a IV a.C

Neste período as Poleis disputaram a hegemonia sobre a Grécia (Hélade). Como conseqüências, ocorreram guerras fraticidas.

Guerras Médicas

Colônias gregas de Oriente Médio sofreram com o controle dos Persas.

As colônias gregas, entre elas Mileto, revoltaram-se e sendo apoiado por Atenas, iniciam a chamada Guerras Medicas, que terminaram com a vitória ateniense no trabalho de Salamina.

Guerra ao Peloponeso

Durante o século V a.C. Atenas apresentou um grande progresso, o que ameaçou o interesse das outras cidades - estados, tais como Esparta e Corinto.

As Poleis grega dividiam-se em dois grupos, um partidário de Atenas e outro de Esparta. O conflito eclodiu em 431 a.C, gerando a guerra de Peloponeso, que terminou com a vitória de Esparta em 404 a.C.

Com essa guerra houve a debilitação das cidades e a redução da força de seus exércitos.

Criaram condições para que em 338 a.C a Grécia fosse conquistada por Felipe, rei da Macedônia, na batalha da Queronéia.

[1] Nesse período, não havia um país chamado Grécia. Havia apenas as Póleis (plural de pólis), cidades gregas que viviam completamente independentes umas das outras. Elas funcionavam como minúsculos países localizados em campos férteis, separados por montanhas difíceis de atravessar. Por isso, o principal contato entre as póleis se estabelecia pelo mar.

Organização Social

O que caracterizava o homem livre era este não ser estrangeiro e não escravo. A ele eram reservadas todas as atividades tidas como nobres: arte, filosofia, política, bem como as atividades que ocorriam “fora de casa”.

A Mulher tinha como funções: reprodução (gerava, amamentava e cuidava dos filhos). Execução de trabalhos manuais, tais como fiação, tecelagem, atividades agrícolas. Isto as colocava no mesmo nível de escravos, já que o trabalho manual era desvalorizado.

No século IV. a.C Xenofontes declarava que “os Deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras”.

A civilização Romana

Em 2.000 a.C a península itálica era habitada por diversos povos. Dentre eles destacava-se os latinos, que fundaram aldeias numa planície próxima do rio Tibre, denominada Lacio. O povoado mais importante era a cidade de Roma. A história da civilização Romana, dividi-se em três períodos:

Monarquia – 753 a.C à 509 a.C

República – 500 a.C à 27 a.C

No século VI a.C os etruscos foram expulsos de Roma pelos romanos que criaram um novo regime político: A república.

Império- 27 a.C à 476 d.C

Em 395 d.C Teodózio dividia o império Romano em: Império Romano do Ocidente, tendo Roma como capital e Império do Oriente, tendo Constantinopla como capital.

Em 476 os Bárbaros ocuparam a parte ocidental do império. A parte Oriental sobreviveu até 1453 quando ocorreu a conquista mulçumana de Constantinopla. Roma:

A família Romana era uma organização Social fundada na religião. Era formada pelo marido, esposa e filhos, servos e escravos. Cada família tinha seus Deuses particulares que se superpunham a tudo em importância. Havia, em cada família, um altar com a chama do fogo sagrado mantido constante, onde era celebrado o ritual do culto aos antepassados, e um túmulo onde ocorria o banquete fúnebre aos mesmos.

O pai, mais que genitor, era o pater, isto é, englobava as funções de pontífice e soberano. Somente ele poderia dirigir a cerimônia do culto e o banquete fúnebre aos mesmos.

Tinha sobre a família o poder de magistrado, ou seja, de justiça.

Cada família tinha suas próprias leis, tendo o pai, o poder de vida e de morte sobre seus familiares.

A esposa adúltera e a filha desonrada tinham a sentença de morte por ele decretada. Quando nasciam os filhos, estes lhes eram entregues. Tinham seus destinos por ele determinados. Podiam vendê-los como escravos.

A mulher ao casar-se era obrigada a adotar a religião do esposo. Abandonava, então, a da sua família, bem como cortava os laços com ela. A descendência era determinada exclusivamente pela religião. A mulher não podia ter descendência. A mulher não era titular de direitos. Não podia recorrer a justiça exterior a família, nem testemunhar em tribunal. O pai podia vender a filha ou arrumar-lhe um esposo, sem consulta prévia a mãe.

Assim, no ano de 195 a.C, mulheres dirigiam-se ao Senado Romano protestando contra a sua exclusão do uso dos transportes públicos – privilégio masculino – e a obrigatoriedade de se locomoverem a pé. Diante deste protesto assim se manifestou o senador Marco Pórcio Catão:

“Lembre-se do grande trabalho que temos tido para manter nossas mulheres tranqüilas e para refrear-lhes a licenciosidade, o que foi possível enquanto as leis nos ajudaram. Imaginem o que sucederá, daqui por diante, se tais leis forem revogadas e se as mulheres se puserem, legalmente considerando, em pé de igualdade com os homens! Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los”. (O que é feminismo – Uma abordagem histórica – p.15)

[1] Fonton, M. E, citado por Andrée Michel em “O Feminismo – Uma Abordagem Histórica”, p. 11, Zahar Editores, 1982.

[2] Fonton, M.E, citado por Andrée Michel em “O Feminismo – Uma Abordagem Histórica”, p. 12, Zahar Editores, 1982.

[3] Gordon Childe, citado por Andrée Michel em “O Feminisno – Uma Abordagem Histórica”, p.13, Zahar Editores, 1982.

[4] Howard Parsons, citado por Andrée Michel em “O Feminismo – Uma Abordagem Histórica”, p. 13/14, Zahar Editores, 1982.

[5] Luiz Henrique Passador, em “Antropologia”, Coletânea de Trecho para fins didáticos..



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