Rodeio de Gordas

José Carlos Zeppellini

  Mais um ato de barbárie machista contra a mulher ocorre em tenda do estacionamento do Centro Esportivo Araraquara, durante as Festas dos Jogos Inter Unesp 2010.

“Alunos agridem colegas da Unesp em ‘rodeio de gordas’
Universitários criam ‘competição’ na qual pulam sobre estudantes obesas
Mais de 50 rapazes fizeram parte da agressão contra as meninas, que ocorreu em jogos entre os campi
Um grupo de alunos da Universidade Estadual Paulista, uma das mais importantes do país, organizou uma ‘competição’, batizada de ‘Rodeio das Gordas’, cujo objetivo era agarrar suas colegas, de preferência as obesas, e tentar simular um rodeio – ficando o maior tempo possível sobre a presa.
A agressão ocorreu no InterUnesp 2010, jogos universitários realizados em Araraquara, de 10 a 13 de outubro. (...)” (Eliane Trindade, de São Paulo e Daniel Bergamasco, Editor-Adjunto de Cotidiano, Folha de São Paulo, C1, 27/10/2010)
O “peão” aproximava-se da moça dizendo: “Você é a menina mais gorda que eu já vi”. A partir daí a subjugava como montaria, com sua sanha sádica, e quanto mais tempo a mantinha sob seu domínio, maior seu mérito.

“(...) Há relatos de gritos de incentivos: ‘Pula, gorda bandida’.” (Eliane Trindade, de São Paulo e Daniel Bergamasco, Editor-Adjunto de Cotidiano, Folha de São Paulo, C1, 27/10/2010)

O vencedor era quem mantivesse a garota submetida a sua estupidez por mais tempo. Há referências de casos em que chegavam a montar nelas.
A educação universitária, como em qualquer outro nível de ensino, envolve formação de personalidade e instrução, sendo a primeira a mais importante. O que está
acontecendo com nossas universidades? O que pode a sociedade que financia seus estudos esperar desses formandos?

“No momento em que a violência desmedida, a falta absoluta da ética e o desprezo pelos mais elementares princípios de cidadania alcançou a universidade, estamos na antecâmara do caos.”

O importante é que não se trata de um fato isolado. Há pouco tempo vivemos um outro espetáculo contra a mulher em outra Universidade.

Esses rapazes estão moralmente abortados da cidadania.

“Essa instituição, que deveria ser o reduto contra a intolerância e a mediocridade, um espaço democrático que garantisse a diversidade de opinião e o respeito ao ser humano e praticasse os ideais da cultura humanística, não pode ser o local de práticas deste jaez.”

Sabemos que o Homo sapiens existe na Terra há 195.000 anos. Até 185.000 anos a cultura era matriarcal. A mulher é que exercia a função organizacional do grupo. Viveram esse tempo de forma pacífica. De 10.000 anos para cá, com a revolução agrícola, o homem pela força física subjuga a mulher e a faz submissa a ele. A cultura torna-se patriarcal.
A partir daí ocorre a Revolução Urbana e originam-se as grandes civilizações. Este ser, de vida pacífica de até então, inaugura com o chamado processo civilizatório, os milhares de anos de História, os quais são marcados por sucessão infinda de guerras que mancharam o Planeta de sangue.
Preocupante é saber até onde o patriarcado vai levar a humanidade.
Esta condição tirou o homem de sua função natural.
Ao referirmo-nos às consequências danosas do patriarcado, não estamos achando que haja uma superioridade da mulher sobre o homem ou deste sobre aquela.
O que ocorre é a superioridade de funções, de caráter evolutivo e adaptativo. Assim, o amor do homem é mais inclinado à proteção. O amor do homem pelo próximo, especificamente, pela mulher e filhos está associado à segurança destes (não-dependência). O amor da mulher tem características aglutinantes, ele amalgama os integrantes do grupo social e familiar, é altruísta e está associado à criação. Pela função materna, este amor aos filhos impõe-lhes cuidados selecionados pela evolução e pré-determinados geneticamente. Ambos se completam e se tornam indispensáveis.
O que nos intriga é como que através da Revolução Agrícola e da Evolução Urbana houve no homem uma distância desta condição natural.

Indiscutivelmente a superioridade evolutiva da mulher em termos organizacionais é evidente e decorre de sua condição materna. A partir dos movimentos feministas a mulher foi reconquistando sua posição natural nas relações humanas e isto, cada vez mais, vem assustando o homem. Em todas as atividades que envolvem inteligência ela tem se sobressaído, principalmente naquelas que requerem inteligência emocional, equilíbrio e bom senso.
Mais uma vez, à semelhança do que aconteceu na Revolução Agrícola, o homem vem se empenhando em resgatar pela força física a posição que também lá conquistou pela força física. É importante que se analisem esses fatos com mais profundidade em termos de causalidade, para não se permitir que o retrocesso se acentue a ponto de a mulher ser novamente reduzida a simples objeto do homem.

“Gordinhas têm que se defender, afirma Preta Gil
A cantora Preta Gil, 36, ganhou em primeira instância uma ação de R$ 100 mil por danos morais que move contra o ‘Pânico na TV’. O processo foi movido após a exibição de um vídeo em que os humoristas a comparam a uma ‘baleia encalhada’.” (Eliane Trindade, Folha de São Paulo, C4 Cotidiano, 27/10/2010)

“Aluno faz ato contra ‘Rodeio de Gordas’
Protesto de estudantes contra agressão em jogos universitários será hoje, às 14h, no campus da Unesp em Assis
A promotora de Araraquara, Noemi Corrêa, também instaurou ontem procedimento para apurar os fatos e a responsabilidade dos organizadores do InterUnesp no episódio. ‘Fiquei chocada ao ver como os estudantes não demonstram respeito para com o próximo’, afirma.
O delegado seccional de Araraquara, Fernando Luiz Giaretta, também afirmou que vai instaurar inquérito para apurar o caso, revelado ontem pela Folha.
A OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil) também emitiu nota de repúdio à agressão.” (Eliane Trindade, Folha de São Paulo, C3 Cotidiano, 28/10/2010) “Imagine um ser que sangra, mas não está ferido. Imagine um ser que sangra, mas não morre. Será uma criatura mágica, mítica, apenas uma mulher, ou ambas as coisas? Será que tal criatura pode ser “meramente” mulher? Há aqui um certo mistério a respeito do qual os homens nada sabem e as mulheres devem saber alguma coisa: Como pode um homem saber o que é a vida de uma mulher? A vida de uma mulher é muito diferente da do homem. Deus ordenou que assim fosse. O Homem é o mesmo, desde o momento da circuncisão até o momento em que definha. Ele é sempre o mesmo, antes ou depois de se unir a uma mulher pela primeira vez. Mas o dia em que uma mulher experimenta o primeiro amor, ela se parte em duas. Nesse dia, torna-se outra mulher. O homem permanece o mesmo depois do primeiro amor. A mulher é outra depois do primeiro amor. Isso continua acontecendo a vida toda. O homem passa a noite com uma mulher e vai-se embora. Sua vida e seu corpo permanecem os mesmos. A mulher concebe. Como mãe, ela é uma pessoa diferente da mulher que não tem filhos. Ela carrega o fruto da noite por nove meses em seu corpo. Alguma coisa cresce. Em sua vida, cresce algo que nunca mais a deixará. Ela é mãe. Ela é e continua sendo mãe, mesmo que seu filho morra, mesmo que todos os seus filhos morram. Isso porque uma vez carregou a criança debaixo do coração. Tudo isso o homem desconhece. Ele não sabe de nada. Não conhece a diferença que há antes do amor e depois do amor, antes da maternidade e depois da maternidade, Ele não pode saber de nada. Apenas uma mulher pode saber e falar isso. É por isso que não podemos aceitar que nossos maridos nos digam o que fazer. Uma mulher só pode fazer uma coisa. Pode respeitar a si mesma, pode manter-se decente. Ela sempre deve agir em conformidade com a sua natureza. Deve ser sempre virgem e ser sempre mãe. Antes de cada relacionamento amoroso, ela é virgem, e depois de cada relacionamento amoroso, é mãe. É assim que se percebe se ela é uma boa mulher ou não.”
“Estas palavras foram pronunciadas por uma mulher nobre da Abissínia para o antropólogo Frobenius, em 1899, e citadas por C. G. Jung e C. Kerényi em seu livro Essasys on a Science of Mythology, Bollingen Series, vol.22 (Priceton University Press, 1963) p. 101. Reproduzidas com permissão do editor.”


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