Palmadas Resquícios da barbárie

  O Homo sapiens existe na Terra há mais ou menos 195.000 anos.

Até 10.000 anos atrás a sociedade era matriarcal, a mulher organizava a vida grupal. Predominava, como base das relações pessoais o sentimento amoroso e, derivado dele, a cooperação e a solidariedade. Viviam em harmonia entre si e com a natureza. Essa condição garantiu a sobrevivência da espécie em 185 mil anos de vida natural e pacífica. Há mais ou menos 10 mil anos ocorreu a revolução agrícola, que condicionou a revolução urbana . Tem início a histórica fase da humanidade chamada civilização e com ela o patriarcado.

Essa historia é a historia da violência.

Abordaremos sua ação contra a criança.

“Ao analisar a historia da humanidade, observa-se que a criança sempre foi tratada como ‘descartável’.” (José Martins Filho. A Criança Terceirizada. pág.17, Ed. Papirus, 2007)

“Os maus-tratos dirigidos às crianças com fins pretensamente educativos tem antecedentes remotos. ‘O castigo corporal de crianças se institucionalizou desde a Suméria primitiva, que já tinha o homem de chicote (...)’.” (Violência de pais contra filhos: procuram-se vítimas. Viviane Nogueira de Azevedo Guerra. Cortez Editora. 2ª ed., 1985, pág. 25)

Na Grecia o pai tinha sobre os filhos o direito de vida e morte.

Na Mitologia grega, a 1ª geração envolve a violência do pai contra os filhos. Da união de Gaia e Urano surgem varias linhagens de filhos, porém os Ciclopes e os Hecatônquiros causavam horror a Urano. Este, então, os mergulhou nas profundezas da Terra, impedindo-os de ver a luz. Passando para a sociedade grega, em Esparta, as crianças tinham sua morte decretada, quando apresentavam defeitos físicos, o que as inadequava às funções guerreiras. Porém, tem-se que o infanticídio não se restringia apenas a estes. Em Cartago os detentores de grande capital sacrificavam crianças para diminuir o número de herdeiros e impedir que seu patrimônio fosse se reduzindo pelas partilhas.

Em Roma, o Pater Familias, o homem chefe da casa estava investido na “Patria Potestas”, poder paterno. Este abrangia toda familia, ou seja, esposa, filhos e escravos. O pai tinha o poder de vida e morte sobre os filhos. O infanticídio era para eles uma forma de livrar-se de filhos indesejados.

Crianças eram colocadas em cestas de vime e deixadas junto ao tronco da Figueira Ruminal ou na Coluna Lactaria, um local no centro de Roma.

Os bebês eram abandonados. Se alguém os quisesse, poderia levá-los. O mais drástico era quando se transformavam em comida de cães.

Drástica também é a constatação que Inocêncio III fazia do palácio papal toda manhã: Nas redes recolhidas pelos pescadores do rio Tibre, além dos peixes, eram encontrados bebês afogados que tinham sido jogados pelas mães durante a noite. Na época de César, Sêneca relatou casos de mutilações em crianças que então eram transformadas em mendigos profissionais. Para tanto, perfuravam os olhos e/ou amputavam-lhes os membros.

Pulando para a atualidade. Com o progresso das psicologias do desenvolvimento, constatou-se que a criança, no início da vida, passa por fases, nas quais o comportamento apresenta características proprias. O conhecimento destas é importante para que pais e outros educadores saibam como respeitá-las e delas cuidarem. Infelizmente, ainda hoje, grande número de pessoas trata a criança como um adulto em miniatura. Levando em conta o comportamento de grande parte dos adultos atuais, se a criança fosse um adulto em miniatura, o mundo estaria perdido. Mas, felizmente, não é. “Eis o preço: quem não tem infância não amadurece Hoje as crianças não vivem como tal. Desde pequenas assumem o mundo adulto e vivem como se fossem gente grande. Em tudo: do vestuário às atitudes e preocupações. Temos roubado a infância de nossas crianças.” (Rosely Sayão, psicóloga, Folha de São Paulo, 17/09/2010, pág. D3)

Portanto, a ignorância destes fatos é que faz com que ainda se tenha em conta que a agressão contra a criança no sentido educativo é válida. Educar, mais que instruir, é formar personalidade, e nesse sentido, educa-se com exemplo. Palmadas, por mínimas que sejam, são violência e violência gera violência.

“Tapinha Dói Educar é introduzir a criança ao mundo do convívio civilizado. Bater, portanto, não faz o menor sentido Sabemos muito bem que alguns pais batem em seus filhos simplesmente porque se descontrolam, porque perdem ou percebem que não têm a autoridade moral sobre a criança para educá-la. Mas aí o problema é só do adulto. A criança, o elo mais fraco dessa relação, não deveria ser o alvo desse descontrole.” (Rosely Sayão, psicóloga, Folha de São Paulo, 27/07/2010, Equilíbrio – pág. 12)

Os pais quando alienados como muitos são hoje em dia, pregam a violência com a ridícula argumentação de que por terem levado palmadas na infância são como são, sem, contudo, terem consciência de que com isso possam ter sido vítimas de consequências comportamentais inadequadas. Acham que normal é ser como são.

“No mundo contemporâneo, pautado pelo consumismo, imediatismo e individualismo, pouco tempo das gerações mais velhas tem sido destinado aos cuidados e à educação dos pequenos. Valeria perguntar: todos os adultos têm condições de se tornar pais?” (Análise de capa do livro “A Criança Terceirizada”, José Martins Filho, Ed. Papirus, 2007)

A preocupação com a aprovação do projeto de lei do Governo Federal, no Brasil, proibindo castigos físicos às crianças, a ser acrescentado ao ECA é visto por muitos como uma interferência do Estado na área privada do lar. Chega-se a esta condição, contudo, dada a irracionalidade dos pais, ainda hoje, de entender que a criança também deve ser respeitada na sua condição humana, apesar de sua idade.

“Contra a Palmada Há ainda quem advogue que o Estado não deva se imiscuir na esfera familiar nem estabelecer parâmetros à ação dos pais. Pelo mesmo raciocínio, deveríamos rasgar a Lei Maria da Penha ou jogar no lixo o estatuto que protege os idosos. Diante das agressões dentro de casa de que são vítimas as crianças, o elogio da ‘palmadinha’ soa muito mal.” (Fernando de Barros e Silva, Folha de São Paulo, 28/07/2010, pág. A2)

A análise dos fatos aqui apresentada leva à conclusão de que os acontecimentos de hoje são consequência da tragedia do processo civilizatório. Então, além da constatação da ineficacia das palmadas no processo educativo, é importante verificar o que segue:

“Não existe palmada bem dada Violência gera violência, como a neurociência já constatou diversas vezes O estatuto que proíbe a punição corporal de crianças visa a que se deixe de considerar normal, necessário ou saudável ‘educar’ com violência. O resultado? Crianças que recebem restrição corporal, palmadas, sacudidas ou abuso verbal (castigos que muitos consideram brandos) se tornam adultos com propensão a comportamento antissocial e agressivo, transtornos de ansiedade, depressão, alcoolismo e outras formas de dependência química.” (Suzana Herculano-Houzel, neurocientista e professora da UFRJ, Folha de São Paulo, 27/07/2010, Equilíbrio pág. 9)

Concluindo, então, muito se falou em palmadas, porém, não percamos de vista que além da consequência física destas, temos que, tão grave quanto ela é a violência psicológica.


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