O tiro que todos disparam

   O tiro que o menino de 10 anos se deu, tirou-lhe apenas a vida do seu corpo. A vida infantil tiraram-lhe antes, ou nem lhe deram.

Hoje a criança tem sua infância roubada.

Caçaram-lhe a cegonha e deram-lhe o que em troca: o bichinho que sai do pipi do papai. Tiraram-lhe o Papai Noel e o que lhes deram em troca: lojas de brinquedos caríssimos. Os brinquedos não representam mais um presente. Cobram-lhe cuidado no brincar em razão do preço a ele pago.

Tiraram-lhe o Coelhinho da Páscoa e deram-lhe o que em troca: a raposa do consumo que lhe antecede e tira-lhe o prazer do encontro dos ovinhos por aquele deixado escondido pela casa.

Tiraram-lhe a rua, hoje, cada vez mais, espaço para assaltos, chacinas, confrontos violentos, balas perdidas e deram-lhe o que em troca: o isolamento de uma vida virtual na internet, bem como jogos de vídeo games cada vez mais violentos, onde o sangue espirra pela tela.

A sabedoria das experiências dos avós foi mandada para as casas de repouso ou asilos de velhos, segundo o poder econômico das famílias.

Tiraram-lhe o sentido da vida e o sonho da vocação a realizar-se profissionalmente, e em troca lhe foi dada a promessa de um bom emprego numa multinacional, um carro do ano, a aposentadoria na velhice e um imóvel a ser quitado pelos bisnetos.

“A vida é sonho, e sonhos, sonhos são”, já dizia Calderón de La Barca.

Sabe-se que o ser humano durante o seu desenvolvimento físico e psíquico passa por várias fases, com características comportamentais próprias a cada uma delas. Não adianta contrariar a natureza, pois ela se vinga. Cada uma delas tem que ser vivida de forma adequada. A importância que tem a vida em cada uma dessas fases depende da naturalidade com que é vivida. Hoje, mais do que nunca, esta se privando a criança da naturalidade da infância.

A educação em geral, incluindo é claro a escola, não se preocupa mais com a formação da personalidade, e sim, supostamente, com a instrução. É alienante. A escola infelizmente está se tornando um campo de batalha. Mestres e alunos em vez de viverem em comunhão em um segundo lar, vêem-se cada vez mais, como inimigos.

Tememos a proximidade da dura realidade contida em Augusto dos Anjos em Eu e Outras Poesias: “O homem que nesta Terra miserável vive entre feras sente a inevitável necessidade de também ser fera”.
Tiremos o ser humano da alienação em que vive e devolvemos-lhe a verdadeira vida, a qual é compatível com sua natureza humana. Sobre esta natureza superpuseram um padrão de vida que atende quase que exclusivamente aos interesses do sistema econômico vigente.

O relacionamento baseado na natureza humana tem como substrato o amor ao próximo, a solidariedade e a cooperação.

O relacionamento alienado tem como base o interesse e como conseqüência a competição e a exploração.

Não entendemos que esses comportamentos são um apelo sem resposta.

É triste ver que, quando o apelo da criança por uma vida mais normal através de palavras, não encontra ouvidos, tenha que materializar sua linguagem através das armas

. Nós seres humanos, somos um só corpo, cada criança que “matamos”, estamos matando um pedaço de nó


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