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VIOLÊNCIA: Uma pessoa é assassinada a cada dez minutos, no Brasil, segundo Ministério da Justiça 14/11/2014


REPÓRTER: Uma pessoa é assassinada a cada dez minutos no Brasil. São quase seis por hora. Os dados são de 2013 e foram apresentados na oitava edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Apenas no ano passado, 50 mil 806 pessoas foram assassinadas. O sociólogo Antônio Flávio Testa considera preocupantes os dados em relação a assassinatos e estupros.

SONORA: sociólogo, Antônio Flávio Testa

"Os números de homicídios e de estupros chamaram muita atenção. Os números são alarmantes. São 53.647 mortes violentas em 2013. E me chama muita atenção a quantidade de estupros, são 50.320. Só que apenas 30% dos casos são registrados, é de se estimar que seja pelo menos três vezes mais. Então, a situação realmente, no Brasil, do ponto de vista da violência contra a vida e a violência sexual são dois fatores que chamam muito a atenção. O Brasil vive um estado quase que de guerra civil. Mas uma guerra civil diferente, é uma guerra do estado contra o crime organizado."

REPÓRTER: Alagoas teve a mais alta taxa de homicídios no país, com 64,7 vítimas a cada 100 mil pessoas. A Bahia foi o estado com o maior número de mortos, mais de cinco mil e quatrocentos. São Paulo tem a menor taxa de vítimas a cada grupo de 100 mil pessoas: 10,8. Em números absolutos, o estado reduziu o total de vítimas de homicídio doloso, aquele em que há a intenção de matar: eles caíram de pouco mais de cinco mil em 2012 para cerca de quatro mil e 700 no ano passado. Mas no Brasil, existem pessoas que estão se empenhando para reduzir esses números. Em São Paulo, por exemplo, surgiu a iniciativa da organização não governamental Associação pela Paz e Estudos da Violência, a APEV, que estuda a violência no país. As conclusões dos estudos são apresentadas em congressos para ajudar o governo a formular políticas públicas. De acordo com o presidente da APEV, José Carlos Zeppellini, nesses dez anos de ONG, a associação percebeu que faltam políticas de prevenção da violência em todo o Brasil.

SONORA: presidente da ONG APEV, José Carlos Zeppellini

"Falta uma política de prevenção da violência. Porque o que se vê hoje é mais uma política de repressão. O estado deveria garantir, propiciar para os cidadãos, uma condição mínima que ele tem direito a ter de se auto conservar, que implica em que: saúde, educação, moradia."

REPÓRTER: O levantamento sobre a quantidade anual de assassinatos no país foi feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e os números de homicídios do Anuário Brasileiro de Segurança Pública vêm do Sinesp, sistema do Ministério da Justiça que reúne dados dos estados.

Reportagem, Aline Reis

Referência:
Artigo publicado na Agência do Rádio
Autores: Aline Reis
e-referencia: http://www.agenciadoradio.com.br/noticia.php?codigo_noticia=PRAN142130
Acessado em: 06/12/2014

José Carlos Zeppellini no Programa
"Todo Seu"

José Carlos Zeppellini esteve no programa Todo seu apresentado por Ronievon, em que o assunto retratado foi o medo de homens irem ao médico.

José Carlos Zeppellini na revista "Bons Fluidos"


A violência, infelizmente, está entre nós. Ela pode ser gritante como um tapa na cara ou subliminar e insidiosa como uma infiltração que escorre, em silêncio, por detrás dos azulejos. De uma maneira ou de outra, ela é o produto mais desprezível do engenho humano, pela profundidade e pelo alcance do sofrimento que é capaz de impingir em pessoas, famílias, comunidades e até ao planeta. "As grandes cidades transformaram-se em praças de guerra. Os jardins floridos das residências foram substituídos por muros pichados. Os condomínios são verdadeiras trincheiras", observa, com preocupação, o psiquiatra José Carlos Zeppellini, diretor do Instituto Zeppellini de Psiquiatria e da Associação pela Paz e Estudos da Violência (Apev).

Desde os primeiros estudos do pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), sabemos que os humanos carregam impulsos destrutivos e inconscientes. A pergunta é: seriam eles irrefreáveis? "Não podemos confundir agressividade com violência. A primeira, comum a todos os organismos vivos, representa um ímpeto de sobrevivência; a segunda traz implícita a vontade de que o outro sofra para que eu possa sustentar minha supremacia", compara Lia Diskin, cofundadora da Associação Palas Athena, em São Paulo, e criadora do Programa de Capacitação para Multiplicadores em Ética, Cultura de Paz e Dinâmicas de Convivência, voltado para os setores público e privado, segundo os preceitos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). "Somos a única espécie capaz de construir metodologias de violência e equipamentos de tortura: física, psicológica e moral", ressalta a estudiosa.

O alento é saber que, da mesma forma que podemos criar esse monstro, também podemos desmanchá-lo. Pecinha por pecinha. Dia após dia. Eis o que estamos fazendo aqui: eu, jornalista, veiculando ideias; os entrevistados ouvidos para esta reportagem, divulgando mensagens transformadoras; e você, leitora, absorvendo as linhas e as entrelinhas deste texto e, assim esperamos, refletindo sobre sua parcela de responsabilidade nesse nobre propósito: a construção - e a manutenção - da paz no cotidiano.

Comecemos por nos localizar no grande mapa da vida na Terra. "A partir da revolução agrícola e urbana, ocorrida há 8 mil anos, iniciou-se um modo de vida que substituiu o amor ao próximo pelo interesse; a solidariedade e a cooperação pela competição e pela exploração. Daí a violência", diagnostica Zeppellini. Acrescente a esse cenário a escalada do consumismo, fenômeno que todas nós, testemunhas desta virada de século, conhecemos bem. "Infelizmente, temos colocado grande parte de nossas fichas nas questões de ordem econômica e financeira. Entretanto, o ser humano não pode ter como propósito unicamente produzir e consumir", enfatiza Lia.

VALORES TROCADOS

O culto ao materialismo satisfaz os desejos individuais, proporciona conforto e tantas outras regalias de ordem prática. Mas, por outro lado, nos afasta da esfera coletiva e, consequentemente, empobrece a existência. É por isso que, para se falar em paz, temos, antes, de repensar nossa escala de prioridades. "Precisamos urgentemente revisitar nossos propósitos e macrovalores e também questionar as diretrizes apresentadas pelas sociedades nas quais vivemos", propõe Lia.

Zeppellini enxerga a mesma urgência em se reformular o que ele chama de "genoma cultural", conjunto de padrões comportamentais que respondem ao interesse das culturas dominantes. "A esperança repousa no resgate do espírito comunitário e das relações sociais saudáveis, a começar pela vizinhança", afirma o psiquiatra. Lia adiciona ao debate outro ingrediente dotado de forte "genética" transformadora: o zelo mútuo - "Somos dependentes do cuidado dos outros. O ser humano não nasceu para o isolamento."

Em grande escala, a impossibilidade de vivermos como seres sociais, dependentes de vínculos recíprocos de amor e proteção, fomenta o triste quadro da violência urbana e doméstica motivada, entre outros fatores, pela segregação social. "Por mais paradoxal que pareça, a violência é a revolta contra a falta de amor. Uma defesa contra a insegurança gerada pela exclusão de uma vida condizente com a natureza humana", aponta o psiquiatra que faz uma importante ressalva: "Não que se tolere ou se aprove esse padrão. Contudo, é importante entendê-lo para que se possam oferecer alternativas de comportamento reivindicativo pacífico e produtivo".

O resgate da noção de conjunto resultará, acreditam os entrevistados, no nascimento de um novo indivíduo, consciente do que pode alcançar em termos coletivos. "Fizeram-nos cair no engodo de acreditar que nossa forma de agir com os demais não causa impacto no mundo. Errado. Cada uma das interações entre os indivíduos transforma total e completamente o mundo", postula Yehuda Berg, codiretor internacional do Kabbalah Centre, em São Paulo. "Quando um número suficiente de pessoas fizer o esforço para encontrar o bem nos outros, as nações descobrirão repentina e milagrosamente as formas de alcançar uma harmonia duradoura", proclama.

Confira a seguir os diferentes campos onde a paz pode sucumbir à violência. Precisamos ficar alertas e conscientes desses riscos para podermos criar um mundo melhor, mais equilibrado e amoroso.

(1) EDUCAÇÃO PARA A PAZ

Como sonhar com a paz se perpetuamos, dentro de casa e no dia a dia das escolas, a mensagem oposta? A verdade é que, boa parte da população compactua com a violência no trato diário com as crianças e os jovens, seja por impaciência, desinformação ou por mera repetição de padrões aprendidos com os antepassados. Um grito aqui, uma palmada ali. Que mal pode haver num inofensivo beliscão? Costumamos pensar, talvez, para afastar o mal-estar que acompanha gestos de natureza perversa e, portanto, ineficazes no contexto -- que se pressupõe construtivo -- da educação. "O combate à violência se inicia na família e na escola", ressalta Zeppellini.

É na infância que se estrutura o caráter dos adultos de amanhã. Não podemos jamais perder essa equação de vista, assim como a percepção de que educar é muito mais do que instruir. Sob essa perspectiva, a escola desempenha papel fundamental na formação de cidadãos socialmente responsáveis. "Além de contribuírem para a formação da personalidade, as instituições de ensino têm de promover a integração e o ajustamento social dos alunos. Estes precisam saber de sua importância para o próximo e vice-versa", afirma o psiquiatra.

Enquanto acreditarmos que a agressão, seja verbal, seja física, dará conta de reparar falhas e de promover o amadurecimento de nossas crianças, o projeto da paz estará seriamente comprometido. "Temos o dever de transmitir ensinamentos aos nossos filhos de maneira assertiva, não abusiva nem violenta", assinala Lia. Para tanto, há que se desvencilhar das velhas crenças educacionais. A moderna pedagogia nos ensina que a punição desprovida de esclarecimento é inócua, que a surra no lugar do diálogo não vai frear o comportamento nocivo. Ao contrário, a tendência é que ele se agrave. "Apenas quando consegue compreender a dimensão do dano causado, a criança ou o jovem se responsabiliza por seus atos. Para isso, é preciso investir no diálogo", propõe Lia.

A Escola Arte de Ser, em São Paulo, nasceu com o intuito de reorientar a educação infantil na direção da paz. O embrião desse novo conceito educacional germinou, inicialmente, nas oficinas de cultura de paz para as crianças -- entre elas, ikebana, origami, cantos devocionais, culinária vegetariana, aquarela e meditação --, promovidas pela Livraria Omnisciência. O estabelecimento pilotado pela jornalista e escritora infantil Maeve Vida, coordenadora do Programa Educação para a Paz, da livraria, e membro do conselho gestor da Escola Arte de Ser, segue os preceitos difundidos pelo educador e iogue indiano Paramahansa Yogananda (1893-1952) conhecidos como How to Live. Essa corrente, fundada em 1917, baseia-se no princípio de se construir no dia a dia uma vida saudável e equilibrada por meio de quatro pilares: Ciência do Corpo, Engenharia Mental, Artes Sociais e Ciência Espiritual Aplicada. "A coerência entre pensamento, palavra e ação é fundamental dentro dessa filosofia", destaca Maeve.

Inspirada nessa metodologia e também na pedagogia Waldorf - que integra as esferas física, emocional e espiritual --, a Escola Arte de Ser abriu as portas há quatro anos. É a primeira instituição de ensino infantil no Brasil a adotar os conceitos importados da Índia. "Oferecemos um trabalho, de maneira que crianças de 2 a 5 anos possam se conectar consigo mesmas por meio de aulas regulares de ioga e meditação, além de atividades lúdicas e criativas, como música, poesia, brincadeiras de roda, origami, jardinagem e muitas outras", afirma a arte-educadora e autora infantil Ligia Miragaia, também conselheira do programa da Livraria Omnisciência de Educação para a Paz. "As experiências vividas nessas atividades cultivam a linguagem do coração - a intuição -, levando à prática de valores humanos universais para a construção de uma cultura de paz", sintetiza Ligia. A expectativa das educadoras é a de que os "filhos" da Escola Arte de Ser se tornem adultos conectados e compassivos, com genuíno interesse pelos problemas dos outros e do planeta. E que esse modelo seja replicado.

(2) RESGATE INTERIOR

De nada adianta buscarmos a paz fora de nós, se nosso íntimo se assemelha a um campo de batalha. A campanha de pacificação, portanto, se inicia em nossa morada interior, e dela se propaga para o mundo. Segundo o monge budista Daniel Henry Calmanowitz, presidente interino do Centro Dharma da Paz - templo de práticas e estudos do budismo tibetano --, e diretor presidente da Fundação Lama Gangchen para a Cultura da Paz, Buda foi um grande difusor da cultura de paz na medida em que mostrou aos seres terrenos a impossibilidade de a insatisfação coexistir com a paz de espírito. Segundo essa tradição, o desprazer se perpetua na esteira dos nossos desejos. "A felicidade e a alegria momentâneas acabam trazendo insatisfação, porque o indivíduo sempre quer alcançar mais e mais realizações." O caminho salvador, ao contrário, nos conduz à felicidade interna, já presente em nós. "Só por meio da experimentação podemos conhecer essa harmonia que leva à autonomia interior. A meditação é uma via possível de transformação da consciência", assegura o mestre.

Meditar, sob a luz do budismo tibetano, significa familiarizar-se com aquilo que é positivo. Aprendizado que se alcança por meio da repetição. "Nós estamos acostumados com o negativo, o não virtuoso: sentir raiva, inveja, ciúme. Meditar é sintonizar-se com a semente positiva dentro de nós", esclarece Calmanowitz. Acompanhe o raciocínio do monge: "Se, no cotidiano, desfrutamos de pequenos momentos de generosidade e compaixão, mesmo sem ter treinado, podemos tornar esses flashes mais duradouros". Como? Parando por alguns minutos, permanecendo em silêncio e observando nosso íntimo. "Perceba o bem-estar que existe dentro de você e deixe-o aflorar", ensina o mestre. Simples assim.

A outra dica para se tornar um instrumento da paz é ainda mais acessível: respirar no intervalo entre uma atividade e outra. Por exemplo, ao entrar e ao sair do carro ou de uma reunião. Passagens, não raro, cumpridas às turras. "Esse hábito traz presença para seu momento", justifica Calmanowitz. Assim, ficará muito mais fácil brecar o impulso de maltratar alguém. "Procurar ser mais amável no dia a dia é uma forma de aderir à corrente da cultura de paz", lembra o monge.

(3) BANDEIRA BRANCA, AMOR

Por mais contraditório que pareça, o terreno dos afetos, sobretudo, o da vida conjugal, costuma ser dos mais belicosos. Você pode concordar: "Claro, onde há convívio e intimidade, há embate". Certíssima. Então, o desafio passa a ser digerir os conflitos desencadeados pela convivência -- inevitáveis e, muitas vezes, necessários --, sem transformá-los em guerras.

Para Lia Diskin, a resposta está na prática da comunicação não violenta. Trocando em miúdos, a combinação de escuta qualificada e de colocações assertivas, bem diferentes das falas ofensivas que costumamos disparar como flechas fumegantes. "Ouvir o outro não significa me submeter, tampouco concordar com tudo o que está sendo dito. Mas eu posso aprender muito com o que o outro diz, ainda que contrarie minhas convicções", garante ela, que vê um horizonte claro e promissor para os relacionamentos atuais, cada vez menos interessados na velha disputa pelo poder. "No passado, as relações eram hierárquicas e patriarcais, portanto, não satisfatórias. Hoje, estamos buscando um modelo horizontal, de parceria respeitosa entre os gêneros."

De acordo com os preceitos budistas, o caminho para se transcender os conflitos se bifurca em cinco "aplicações" ou sentidos de paz: olhar, escutar, falar, tocar e pensar com paz. "Na prática, isso significa procurar não ofender ninguém, pensar na maneira de tocar o outro, escutá-lo com interesse e atenção, olhá-lo com amorosidade e, finalmente, conscientizar-se de seus pensamentos", detalha Calmanowitz.
No caso específico do relacionamento a dois, há um fator perigoso em jogo: o arrebatamento da paixão. Atiçados por essa força, muitas vezes, agimos por impulso ou então tendemos a tolerar certos descomedimentos vindos da pessoa amada. "Nossas paixões são sempre exageradas, arrebatadoras. Isso não significa que essa violência da paixão justifique qualquer violência nas relações", alerta Marcus André Vieira, psicanalista e psiquiatra, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e professor do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também autor de A Paixão e A Ética da Paixão, ambos pela editora Zahar.

O grande propulsor de muitos casos de violência é o equívoco de achar que o outro é o responsável pelo nosso sofrimento. Dessa interpretação, nasce o pernicioso sentimento de retaliação. "Esse é o caminho mais fácil para evitar assumir a responsabilidade pelo que fazemos", sublinha Vieira. Mas isso não quer dizer que devemos temer a paixão por sua natureza visceral. "Não é a intensidade de um sentimento que faz ele ser bom ou mau, mas o destino que lhe damos", esclarece ele. E para superar os desentendimentos num relacionamento afetivo, nada melhor do que se alimentar do sentimento que o originou. "A única razão de estarmos ali é porque encontramos alguma coisa que só ali existe. Pensando assim, fica tudo mais fácil", encoraja o psicanalista.

(4) POR UM TRÂNSITO MAIS GENTIL

Há uma névoa densa, misto de irritação com ódio gratuito, circulando pelas ruas e pelos corações das pessoas no corre-corre nosso de cada dia. É alarmante o nível de hostilidade com que nos tratamos no trânsito. Pedestres, motoristas, ciclistas e usuários das diferentes modalidades de transporte público viraram combatentes armados com xingamentos, empurrões e, infelizmente, até mesmo tiros e "fechadas" fatais, como a que vitimou recentemente a ciclista Juliana Dias, de 33 anos, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Na opinião da psicóloga Liliana Seger, coordenadora de psicologia do Ambulatório dos Transtornos do Impulso, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora da Associação Viver Bem - ONG que atua na promoção do bem-estar junto a portadores de transtorno do impulso e seus familiares -, a violência no trânsito tem inúmeros motivadores. A sensação de impotência impingida por congestionamentos gigantescos, os sistemas de transportes coletivos abarrotados e as enchentes criminosas são os fatores mais incisivos. "Se a pessoa passa seguidamente por essas situações estressantes, sua tolerância fica menor. Logo, ela apresenta mais raiva, irritação e ansiedade."

As ruas das grandes cidades, lembra a psicóloga, viram terra de ninguém quando nos sentimos à vontade para infringir as leis da boa convivência. "O trânsito é um lugar onde nos sentimos anônimos e, portanto, confortáveis para xingar os outros. Entretanto, temos de diferenciar esse comportamento daquele apresentado pelas pessoas que sofrem de transtorno explosivo intermitente (TEI), quadro em que não há o controle do impulso, e a reação ao evento se dá de forma desproporcional", explica Liliana.

Na maioria dos casos, contudo, a resposta ao estresse vivenciado na locomoção diária casa-trabalho-trabalho-casa é mais do que compreensível. E, antes que o mal se agrave, muita coisa precisa mudar. As soluções para o caos no trânsito, o gatilho para a violência, são bem conhecidas: diminuição do fluxo de automóveis em face da ampliação da rede de transporte público, que, além de extensa, deve ser eficaz e segura para que os cidadãos se sintam estimulados a deixar os carros na garagem. Enquanto esse cenário ideal não se materializa, podemos lançar mão de paliativos para reduzir a ansiedade que palpita a cada "buzinaço", tais como, respirar pausadamente, ouvir música ou áudio-livros. "Essas são apenas formas de driblar as situações. Não podem ser vistas como soluções de fato", enfatiza a psicóloga.

RESOLUÇÃO PLANETÁRIA

No ano 2000, a Assembleia Geral das Nações Unidas lançou um manifesto calcado em seis princípios fundamentais para a construção de uma cultura mundial de paz. Conheça essas diretrizes e faça a sua parte.

{1} Respeitar a vida
Respeitar a vida e a dignidade de cada ser humano, sem discriminação nem preconceito.

{2} Rejeitar a violência
Praticar a não violência ativa, rejeitando-a em todas as suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social, em particular contra os mais desprovidos e vulneráveis, como as crianças e os adolescentes.

{3} Ser generoso
Compartilhar o tempo e os recursos materiais no cultivo da generosidade e pôr um fim à exclusão, à injustiça e à opressão política e econômica.

{4} Ouvir para compreender
Defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural, privilegiando sempre o diálogo sem ceder ao fanatismo, à difamação e à rejeição.

{5} Preservar o planeta
Promover o consumo responsável e um modo de desenvolvimento que respeitem todas as formas de vida e preservem o equilíbrio dos recursos naturais do planeta.

{6} Redescobrir a solidariedade
Contribuir para o desenvolvimento da comunidade, com a plena participação das mulheres e o respeito aos princípios democráticos, de modo a criar juntos novas formas de solidariedade.

A PAZ QUE BROTA DO CORAÇÃO

Quem, em sã consciência, não plantaria a semente de uma árvore geradora de dinheiro, se isso fosse possível? Por que não fazemos o mesmo com a semente da paz, que reside dentro de todas nós? Emendando essas duas perguntas, o guru indiano Prem Rawat semeou a reflexão em palestra recente apresentada na capital paulista. Ele veio em paz e pela paz. Criador da Fundação Prem Rawat, entidade filantrópica que oferece ajuda humanitária mundo afora, e do Programa de Educação para a Paz, voltado para a reabilitação de detentos de diversos países, Maharaji, como é conhecido, começou a espalhar o germe da concórdia por diferentes localidades da Índia, ainda na infância. O garoto de 8 anos incentivava seus compatriotas a buscar a harmonia interior - e, acredite, as plateias ficavam lotadas. Segundo Rawat, esse estado de beatitude pode ser alcançado por qualquer pessoa, desde que os olhos se voltem para dentro e descubram o ser amoroso e inocente que ali habita. Confira, a seguir, a síntese da palestra.

"Aprendemos muitas coisas vindas de fora e nos esquecemos das que vêm de dentro de nós. Se uma pessoa não está satisfeita do ponto de vista interior, nada externo poderá ajudá-la. A respiração é a chave para esse entendimento. Ela nos permite simplesmente ser. Todo dia, a cada momento, ela vem e vai. Mas estamos muito ocupados com a ambição. Perseguindo o sucesso. Tome algum tempo para redefinir o sucesso. Você, eu, todos nós estamos vivos, respirando. Essa é a maior realização, a maior bênção. Entretanto, medimos nossa satisfação pelas coisas que não temos. Por isso, venho lembrá-los daquilo que já possuem: a semente da clareza e do contentamento. Mas vocês precisam se dar conta disso. Nosso interior é o palco em que há verdadeira paz. Mas e a paz mundial? A carência de paz no mundo é resultado da falta de paz nas pessoas. O turbilhão interno gera o turbilhão externo. Quando o entendimento e a paz são acolhidos intimamente, tudo se encaixa. Os abalos deixam de existir. Sobra apenas a estabilidade. A paz é um direito fundamental. E ela mora em você."

Referência:
Artigo publicado na revista bons fluidos em 05/2012
Autores: Raphaela de C. Mello e Vivian Goldmann
e-referencia: http://www.planetasustentavel.abril.com.br
Acessado em: 26/01/2013


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