Mais um episódio lastimável

José Carlos Zeppellini

  A notícia da expulsão de Geisy Arruda pela UNIBAN é estarrecedora...Estarão os rapazes liberados a agir sempre assim em defesa do ambiente escolar.

As cenas são conhecidas: "pu-ta pu-ta! Vamos estuprar!"..."Solta ela professor"...Um aluno chutou a maçaneta da porta da sala em que a moça estava encurralada; Outros tentaram colocar o celular entre suas pernas para fotografa-lá...

("Os Linchadores da UNIBAN - Fernando de Barros Silva - Folha de São Paulo - A2 Opinião - 09/11/2009.")

"UNIBAN expulsa aluna que foi à aula com vestido curto..."

Entenda o Caso.

A Polêmica

No dia 22 de Outubro de 2009, Geisy Arruda, 20, aluna do curso de turismo da UNIBAN em São Bernardo do Campo, é hostilizada por cerca de 700 estudantes por usar um vestido considerado curto pelos manifestantes.

Ela é obrigada a se cobrir com um jaleco e a deixar a faculdade sob a proteção da PM.

A Decisão

Na madrugada de ontem, a UNIBAN decidiu expulsar a estudante em "razão Do fragrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e a moralidade"...

("Folha de São Paulo - Cotidiano 3 - Especial C1 - 08/11/2009 - Talita Alcântara e Silva, Estevâo Bertoni, Catarina Nakashima.”)

Análise

Culpar a vítima: Essa foi a estratégia.

"Culpe a vítima.” Essa foi a estratégia utilizada pela UNIBAN para reduzir os danos provocados pelo "affaire" Geisy. Acho que não chamaram ninguém do departamento de marketing para a reunião que definiu a expulsão. Nem da pedagogia, nem o professor de ética, se é que tem um.

(“Folha de São Paulo - Cotidiano 3 - Especial C1 - 08/11/2009 Hélio Schawartsman - Da equipe de articulistas.”)

"Expulsão atesta incompetência, diz entidade"

Para a coordenadora do comitê de defesa da Mulher, universidade que deveria promover discussões, teve atitude autoritária.

“Ao expulsar essa menina, a universidade assina seu atestado de incompetência”, afirma Samantha Buglione, coordenadora da ELADEM (comitê latino americano do Caribe para a defesa da mulher) no Brasil.

("Folha de São Paulo – Especial C2 Cotidiano – 08/11/2009.")

Estudamos violência há 33 anos e a consideramos como expressão destrutiva da agressividade. Vimos que a agressividade é um recurso de que foram dotados os seres vivos animais, para satisfazer as necessidades de auto-conservação e conservação da espécie. Entre os animais ditos irracionais, a mesma tem controle genético, e a seleção natural foi cada vez mais a restringindo à fins construtivos. Não há entre eles violência entre seres de espécie diferentes. Entre os da mesma espécie só em alguns é que há agressão entre os mesmos.

Partindo dos ancestrais do homem, dada as características do habitat em que viveria, ou seja, a superfície do Planeta e a impossibilidade do sistema nervoso conter estruturas
determinantes de comportamentos adaptativos para todas as situações, a natureza dotou o homem de uma maior inteligência para assim criar, de pronto, reações adaptativas a cada situação nova.

Para dar suporte a essa nova condição, liberou parcialmente as gratificações das necessidades básicas de auto-conservação e conservação da espécie do controle genético, bem como a agressividade. Contudo, para conter sua ação destrutiva a natureza colocou o sentimento amoroso entre estes seres. Tal condição sensibilizaria o ser em relação ao sofrimento imposto ao outro. Desde os ancestrais do homem, tal como, o Australopitecus, passando pelo Homo habilis, Homo eretus, Homo sapiens neanderthalensis e Homo sapiens sapiens, até oito mil anos atrás, não houve degradação do ecossistema, destruição da biosfera e, segundo muitos estudiosos do assunto, predominava na relação entre eles o amor ao próximo, a solidariedade, não ocorrendo violência.

De mais ou menos 8.000 anos para cá, com a revolução agrícola, a sociedade até então matriarcal passa à patriarcal. Com o tempo, o amor é substituído pelo interesse na relação entre as pessoas e a solidariedade pelo interesse. A mulher passa a ser subjugada, e até hoje luta pela sua emancipação.

"Avanço? A cada 15 segundos uma mulher é espancada no país. É muito para o meu gosto. A sociedade civilizada, em vez da patriarcal como temos, tem que resolver isso na conversa, disse Saffiot. Para a professora, o fato suscita outro debate: o conceito de modernidade social. "Acentuar o papel da mulher como objeto é um avanço ou queremos outra coisa? Indago...".

("Para sociólogas, sociedade ainda é conservadora. Folha de São Paulo- Cotidiano C3 - 10/11/2009.")

Em razão do exposto, pelo nosso entendimento, é totalmente deplorável tanto a hostilização dos 700 colegas á referida estudante, bem como, mais ainda, a expulsão da mesma pela universidade.

"A expulsão da aluna Geisy Arruda da UNIBAN é uma sucessão de equívocos marcada pela intolerância, falta de educação e pela ausência de política educacional e administrativa compatível com as responsabilidades, as finalidades e as diretrizes de uma instituição universitária."

("Análise - A Barbarie na Universidade. Arthur Roquetti de Macedo – Folha de São Paulo - C3 - 09/11/2009.")

É importante enfatizar que qualquer escola seja qual for o seu nível, primário, secundário ou superior, tem por objetivo muito mais que dar instrução, formar personalidade. Personalidade se forma com amor, compreensão e não com violência. É célebre a verdade da frase: "Só o amor constrói". Só estas posturas são capazes de resgatar o ser humano da alienação em que cada vez mais se degenera.

“Universidades esquecem de formar pessoas, diz educador.

“A expulsão da aluna Geisy pela UNIBAN é uma decisão precipitada que revela também um conceito adotado por universidades na contra-mão dos princípios educacionais. Uma das tarefas da instituição de ensino é formar pessoas. As universidades estão sendo excessivamente pragmáticas, Só para investir no conhecimento e não no sentido ético da educação.” Diz Célio da Cunha, 66, professor da UNB(Universidade de Brasília) e que trabalhou 11 anos para a UNESCO(Organização das Nações Unidas) para a educação Ciência e Cultura.

("Folha de São Paulo - Cotidiano C3 - 09/11/2009.")

"Serviço de ajuda a mulheres agredidas dobra atendimento. Ligações para denunciar violência contra mulheres subiram de 8.693 no primeiro semestre de 2007 para 9.542 neste ano".

(("Johanna Nublat, Eduardo Scolese – Folha e São Paulo- Cotidiano 2- Especial C1 - 08/08/2008")

Editorial – Hipocrisia social

Pelo que carrega de surreal e inadmissível, o episódio que culminou com a expulsão e posterior readmissão da estudante Geisy Arruda pela Universidade Bandeirante (UNIBAN), de São Paulo, desfralda para o País os perigos do irracional coletivo e os limites do despreparo de algumas instituições de ensino... Em todo o seu espectro, o episódio constituiu-se num marco de retrocesso que deve ser prontamente rechaçado pela sociedade e condenado pelos organismos competentes não deve jamais se esgotar na mera readmissão de Geisy.

(("Carlos José Marques, Diretor Editorial - ISTOÉ - Pág. 22 - 18/11/2009")

"A violência de gênero tem sua origem na discriminação histórica contra as mulheres, ou seja, num longo processo de construção e consolidação de medidas e ações explícitas e implícitas que visam a submissão da população feminina, que tem ocorrido durante o desenvolvimento da sociedade humana, A discriminação não deixa de ser um aspecto fundamental da violência. Significa o processo que sustenta e justifica os atos violentos.” Pg. 29.

No Brasil, até 1830, os homens podiam matar as mulheres adúlteras. Naquela época, havia um dispositivo legal que permitia aos maridos "emendar a mulher das más manhas pelo uso de chibatas. Pg. 33.

(("O que é violência contra a mulher – Maria Amélia de Almeida Teles & Mônica Melo – Coleção Primeiros Passos- 314 – Editora Brasiliene - 2002.")

Tal fato não pode ser considerado apenas na sua particularidade. Tem que ser apreciado pela sua dimensão causal. Já vimos que o Homo sapiens sapiens apareceu na Terra a 195 mil anos. Até 8 mil anos A.C vivia da caça e da coleta. Até então a cultural era matriarcal. Com o advento da cultura agrícola a mulher tem um papel inicial que é o cultivo pela enxada. A medida que a agricultura se expandia foi exigida a força física. Entra em cena o homem. A enxada é substituída pelo arado. A partir daí pela força física, o homem começa a suplantar a posição da mulher e a subjugá-la.

“Por meio da força bruta, inicialmente, forjou-se o controle sobre as mulheres. Gradativamente foram introduzidos novos métodos e novas formas de dominação masculina: as leis, a cultura, a religião, a filosofia, a ciência, a política. Ao serem tratadas como propriedade dos homens, as mulheres perderam, em diferentes níveis, a autonomia, a liberdade e o mais básico direito de controle sobre seu próprio corpo.”

São inúmeros os exemplos da prática de atos de submissão e hostilidade sexuais que, frequentemente, foram levados aos extremos: venda e troca de mulheres, como se fossem mercadorias, mulheres escravizadas, violadas, vendidas à prostituição, assassinadas por ocasião de morte de seus senhores ou maridos, ou ainda a mutilação genital feminina (amputação do clitóris), cuja prática já deixou aleijadas 114 milhões de mulheres em todo o mundo (Organização Mundial de Saúde, 1995).- Pág. 29

. ("O que é Violência contra a Mulher - Maria Amélia de Almeida Teles & Mônica Melo - Coleção Primeiros Passos - 314 - Editora Brasiliene – 2002.")

Indiscutivelmente a superioridade evolutiva da mulher em termos organizacionais é evidente e decorre de sua condição materna. A partir dos movimentos feministas a mulher foi reconquistando sua posição natural nas relações humanas. Isto cada vez mais vem assustando o homem. Em todas as atividades que envolvem inteligência, ela tem se sobressaído, principalmente naquelas que requer inteligência emocional, equilíbrio e bom senso. Cada vez mais ele tem se empenhado em resgatar pela força física a posição que também conquistou pela força física. É importante que se analise esses fatos com mais profundidade em termos de causalidade, para não se permitir que o retrocesso se acentue a ponto de a mulher ser novamente reduzida a simples objeto do homem.

“Imagine um ser que sangra, mas não está ferido. Imagine um ser que sangra, mas não morre. Será uma criatura mágica, mítica, apenas uma mulher, ou ambas as coisas? Será que tal criatura pode ser “meramente” mulher? Há aqui um certo mistério a respeito do qual os homens nada sabem e as mulheres devem saber alguma coisa: Como pode um homem saber o que é a vida de uma mulher? A vida de uma mulher é muito diferente da do homem. Deus ordenou que assim fosse. O Homem é o mesmo, desde o momento da circuncisão até o momento em que definha. Ele é sempre o mesmo, antes ou depois de se unir a uma mulher pela primeira vez. Mas o dia em que uma mulher experimenta o primeiro amor, ela se parte em duas. Nesse dia, torna-se outra mulher. O homem permanece o mesmo depois do primeiro amor. A mulher é outra depois do primeiro amor. Isso continua acontecendo a vida toda. O homem passa a noite com uma mulher e vai-se embora. Sua vida e seu corpo permanecem os mesmos. A mulher concebe. Como mãe, ela é uma pessoa diferente da mulher que não tem filhos. Ela carrega o fruto da noite por nove meses em seu corpo. Alguma coisa cresce. Em sua vida, cresce algo que nunca mais a deixará. Ela é mãe. Ela é e continua sendo mãe, mesmo que seu filho morra, mesmo que todos os seus filhos morram. Isso porque uma vez carregou a criança debaixo do coração. Tudo isso o homem desconhece. Ele não sabe de nada. Não conhece a diferença que há antes do amor e depois do amor, antes da maternidade e depois da maternidade, Ele não pode saber de nada. Apenas uma mulher pode saber e falar isso. É por isso que não podemos aceitar que nossos maridos nos digam o que fazer. Uma mulher só pode fazer uma coisa. Pode respeitar a si mesma, pode manter-se decente. Ela sempre deve agir em conformidade com a sua natureza. Deve ser sempre virgem e ser sempre mãe. Antes de cada relacionamento amoroso, ela é virgem, e depois de cada relacionamento amoroso, é mãe. É assim que se percebe se ela é uma boa mulher ou não.”

“Estas palavras foram pronunciadas por uma mulher nobre da Abissínia para o antropólogo Frobenius, em 1899, e citadas por C.G Jung e C. Kerényi em seu livro Essasys on a Science of Mythology, Bollingen Series, vol.22 (Priceton University Press, 1963) p. 101. Reproduzidas com permissão do editor.”

("Livro de Bárbara Black Koltuv, Ph.D. – A TECELÃ, Ensaios sobre a Psicologia Feminina. Extraídos dos Diários de uma Analista Junguiana – Editora: Cultrix.")


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